Capítulo 7 – Melanésios Isolados e Modernizados

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Capítulo 7
Melanésios Isolados e Modernizados

Já que a nossa tarefa era reunir dados para lançar luz sobre a causa da degeneração física moderna entre os grupos raciais humanos em várias partes do mundo, tornou-se necessário incluir nos estudos vários grupos vivendo nos climas quentes e úmidos dos trópicos. Novamente foi desejável obter contato com grupos altamente isolados e, assim, relativamente primitivos para comparação com grupos modernizados do mesmo grupo racial. De modo a realizar isto, foi feita uma expedição em 1934 para oito arquipélagos do Pacífico Sul para estudar grupos de melanésios e polinésios. Os melanésios descritos aqui viviam em Nova Caledônia e nas Ilhas Fiji.

Se os fatores que causam as degenerações físicas da humanidade são praticamente os mesmos em qualquer lugar, deveria ser possível encontrar uma causa comum em ação, independente de clima, raça ou ambiente.

Devido à vasta extensão das águas do Pacífico e do número limitado de linhas de transporte, tornou-se muito difícil organizar um itinerário conveniente. Isto, entretanto, foi, por fim, satisfatoriamente realizado indo em direção sul pelos arquipélagos mais ao leste; ou seja, pelas Ilhas Marquesas, Ilhas Society e Ilhas Cook e estão em direção oeste para as Ilhas Tongan no centro sul do Pacífico próximo à Nova Zelândia e então em direção oeste para Nova Caledônia, próxima à Austrália. A partir deste grupo, nós fomos em direção norte para as Ilhas Fiji, também no oeste do Pacífico e então para as Ilhas Samoan no centro do Pacífico ao sul do Equador e então para as Ilhas Havaianas ao norte do Equador. Estes grupos de ilhas eram todos povoados por grupos raciais diferentes que falavam línguas diferentes. As idas de arquipélago para arquipélago eram feitas em grandes navios e entre as ilhas do grupo em pequenas embarcações exceto nas Ilhas Havaianas onde foi usado um avião.

O roteiro em cada grupo consistia em fazer contato com guias e intérpretes locais. Geralmente eles haviam sido postos a disposição previamente por correspondência com oficiais do governo. Por estes meios, nós fomos capazes de alcançar grupos isolados em locais bem distantes do contato com navios mercantes ou de troca. Para alcançar esses grupos isolados frequentemente era necessário atravessar trilhas acidentadas e difíceis já que a maioria dessas ilhas, sendo de formação vulcânica, são montanhosas.

Ao alcançar esses grupos isolados, nossas saudações e os propósitos de nossa missão eram comunicados por nossos intérpretes aos chefes. Frequentemente muito tempo era gasto em cerimoniais e banquetes necessários. Em todos os casos, nós recebemos uma recepção muito cordial e excelente cooperação. Em nenhum caso houve antagonismo. Pelo telégrafo subterrâneo, eles sempre pareciam saber da nossa vinda e estavam preparados para nós. Uma vez que as formalidades acabavam e nossos desejos conhecidos, os chefes instruíam os membros de suas tribos a proceder com nosso roteiro para fazer exames, registrar dados pessoais, fotografar e coletar amostras de alimentos para análises químicas. As amostras de alimentos eram secas ou preservadas em formalina.

Os registros detalhados de cada indivíduo incluíram dados sobre a tribo, vila e família, sua idade, residência prévia, desenvolvimento físico, tipos de  alimentos comidos, condições  físicas de cada dentes incluindo presença ou ausência de cavidades, o formato das arcadas dentárias, o formato e desenvolvimento do rosto e notas detalhadas sobre divergências do seu tipo racial. Características físicas especiais foram fotografadas. Foi feita uma comparação desses fatores em cada um dos membros mais isolados da mesma tribo e naqueles na vizinhança de porto ou ponto de desembarque da ilha. Informações detalhadas foram asseguradas por oficiais do governo, geralmente na forma de relatórios estatísticos governamentais anuais, apresentando o tipo e quantidade dos vários ingredientes e artigos importados e, similarmente, dos exportados. Foi feito contato em cada grupo da ilha com os oficiais de saúde e os estudos geralmente eram feitos com a assistência deles. Em muitas ocasiões, o único contato com a civilização consistia da visita de um pequeno navio de troca uma ou duas vezes ao ano para coletar a copra ou coco seco, conchas e outros produtos tais que os nativos acumulavam para permuta. O pagamento por esses produtos geralmente era feito em bens permutáveis e não em dinheiro. Os seguintes artigos consistiam quase sempre de 90 % do valor total: farinha branca e açúcar. 10 % consistiam de trajes de vestuário ou de materiais para estes trajes.

Habitantes das Ilhas do Mar do Sul - Melanésios: 5 e 6 - Polinésios: 1, 2, 3, 4, 7 e 8

Apesar dos missionários encorajarem as pessoas a adotar hábitos da civilização moderna; nos distritos isolados, as tribos não tinham como divergir muito de seus alimentos nativos devido à infrequência da visita do navio de troca. Foram feitos esforços em quase todas as ilhas para induzir os nativos a cobrir seus corpos, especialmente na frente dos estrangeiros. Em várias ilhas, medidas reguladoras foram adotadas exigindo que se cobrisse o corpo. Esta regulação reduziu enormemente a prática primitiva de untar a superfície do corpo com óleo de côco, que tinha o efeito de absorver os raios ultra-violeta prevenindo danos pelo sol tropical. Neles, esta camada de óleo fazia dispersar a chuva, que era frequentemente torrencial apesar de ser de curta duração. A irradiação do óleo de côco era considerada, pelos nativos, fornecer, adicionalmente, uma importante fonte de nutrição. Suas recém adquiridas vestimentas molhadas se tornaram uma séria ameaça ao conforto e saúde dos que as vestiam.

Os antigos navegadores que visitaram as Ilhas do Mar do Sul relataram as pessoas como sendo extremamente fortes, de construção vigorosa, belos de corpo e de disposição amigável. Havia, no passado, populações densas na maioria das ilhas habitáveis. Em contraste com isto, agora se descobre que em muitas das ilhas a taxa de mortalidade superou em muito a taxa de natalidade de modo que a própria existência desses grupos raciais está, muitas vezes,  seriamente ameaçada.

A ilha de Nova Caledônia é uma das maiores do Pacífico. Ela está situada próxima a 23 graus sul de latitude e 165 graus leste de longitude. Os habitantes da Nova Caledônia são um grupo racial puramente melanésio. Eles têm ombros largos, são muito musculosos e, no passado, muito guerreiros. Estas ilhas estão sob controle francês. A população estrangeira é principalmente francesa e limitada principalmente à vizinhança do único porto em Noumea. A subjugação destas pessoas foi muito difícil e, tão recentemente quanto 1917, um bando do interior, em protesto contra os esforços de estabelecer uma colônia branca e plantações de açúcar em uma seção cobiçada de terra costeira, varreu a colônia francesa na noite e massacrou quase toda a população. Seu contato com os alimentos marinhos necessários havia sido cortado. Eles acreditam que necessitam de frutos do mar para manter a vida e competência física. O desenvolvimento físico dos primitivos incluindo seus dentes e arcadas dentárias é de um grau muito elevado. Uma comparação dos indivíduos que vivem próximos aos portos com aqueles que vivem em locais isolados no interior ilha mostra aumentos notáveis na incidência de cáries. Para aqueles que vivem quase exclusivamente de alimentos nativos, a incidência de cáries foi de somente 0,14 %, enquanto que para aqueles usando alimentos permutados, a incidência de cáries foi de 26 %. O esplêndido desenvolvimento do rosto e da arcada dentária desses Caledonianos muito primitivos é apresentado na Fig. 28. Note também o cabelo crespo, músculos fortes do pescoço e do rosto.

Figura 28. Estes melanésios são típicos quanto à constituição física geral, formato do rosto e da arcada dentária de sua raça, a qual se espalha por uma grande área de ilhas no sudeste do Pacífico. A alimentação de todos é adequada para eles desenvolverem e manterem seu padrão racial.

O grupo das Ilhas Fiji se situa entre 15 e 22 graus sul de latitude e entre 177 graus oeste e 175 graus leste de longitude, abrangendo assim a linha internacional de data. Os habitantes das Ilhas Fiji são similares em desenvolvimento físico e aparência aos habitantes da Nova Caledônia e, como eles, são amplamente, se não totalmente, melanésios na origem racial. Os homens têm cabelo crespo e ombros largos. No passado, eles foram excelente guerreiros. Eles não são tão altos quanto seus inimigos hereditários, os Tongans, ao leste e, de modo a fazer eles parecerem igualmente altos, eles adotaram a prática de educar seu cabelo crespo para cima da cabeça até uma altura que frequentemente alcança seis polegadas (15 cm) ou mais. Formatos do rosto e arcada dentária típicos são apresentados na Fig. 29. Eles estão sujeitos à Grã Bretanha e, onde houve administração, nos distritos próximos aos portos e nessas ilhas onde foram estabelecidas plantações de açúcar, eles sofreram enormemente de doenças degenerativas.

Figura 29. O desenvolvimento dos ossos do rosto determina o tamanho e formato do palato e o tamanho das vias aéreas nasais. Note a força do pescoço dos homens em cima e os rostos bem proporcionais das garotas embaixo. Tais rostos são geralmente associados com corpos devidamente proporcionais. Cárie é rara nessas bocas contanto que eles usem de uma seleção adequada dos alimentos nativos.

Já que Viti Levu, uma das ilhas deste grupo, é uma das maiores ilhas do Oceano Pacífico, eu tinha esperança de encontrar nela um distrito afastado o suficiente do mar que tornasse necessário aos nativos viver totalmente de alimentos terrestres. Desta maneira, com a assistência de oficiais do governo e usando uma estrada governamental recém aberta, eu consegui adentrar bem o interior da ilha com veículo motorizado e, deste ponto, proceder mais para o interior a pé com dois guias. Eu não consegui, entretanto, ir além das pilhas de conchas carregadas para o interior. Meu guia me disse que sempre foi essencial, como é hoje, para as pessoas do interior obter algum alimento do mar e que mesmo durante os piores períodos de guerra entre as tribos do interior ou da encosta e as tribos da costa, aqueles do interior levariam durante a noite certos alimentos vegetais das áreas montanhosas e os colocariam em esconderijos e retornariam a noite seguinte para obter frutos do mar que foram colocados nestes depósitos pelas tribos do litoral. Os indivíduos que carregassem esses alimentos nunca eram molestados, nem mesmo em plena guerra. Ele me disse mais, que eles necessitam de alimentos do mar pelo menos a cada três meses, mesmo hoje em dia. Este foi um assunto de profundo interesse e ao mesmo tempo de desapontamento, já que um dos propósitos da expedição aos Mares do Sul era encontrar, se possível, plantas ou frutas que juntas, sem o uso de produtos animais, fossem capazes de fornecer todos os requisitos do corpo para crescer, manter boa saúde e um alto grau de competência física. Dentre as fontes de alimento animal, estava o porco selvagem do mato. Ele não era nativo, mas importado em praticamente todas as ilhas, e ele se tornou selvagem onde houvesse abundância de alimento para ele. Outro alimento animal era o do caranguejo-dos-coqueiros que cresce até um peso de muitas libras. Em certas estações do ano, os caranguejos migram para o mar em grande número vindos das montanhas e terras interiores. Eles gastam aproximadamente três dias no mar como parte de seu programa reprodutivo e retornam posteriormente para seus habitat montanhosos. Suas rotas de viajem são tão próximas quanto possível de linhas retas. Na estação da migração, grandes números de caranguejos são capturados como alimento. Esses caranguejos roubam o fruto dos coqueiros. Eles escalam as árvores durante a escuridão e retornam ao chão antes da alvorada. Eles cortam os côcos e deixam-nos cair no chão. Quando os nativos ouvem côcos caindo na noite, eles colocam uma cinta de grama ao redor da árvore, quinze e vinte pés (4,5 a 6 m) acima do chão e quando os caranguejos descem e tocam a grama eles pensam que chegaram no chão, largam o apoio e são aturdidos pela queda. Os nativos então coletam os caranguejos e os colocam em um cercado onde eles são alimentados com côcos partidos. Em um tempo de suas semanas os caranguejos estão tão gordos que eles arrebentam sua carapaça. Eles viram então uma refeição muito deliciosa. Peixes de água doce de vários tipos são usados quando disponíveis nos rios das montanhas. Alimentos animais terrestres, entretanto, não são abundantes no interior montanhoso e não foi encontrado nenhum lugar onde os alimentos vegetais nativos não fossem suplementados por frutos do mar.

Nossa primeira viagem às Ilhas Fiji foi em 1934 e a segunda em 1936. Em nossa primeira viagem, nós tivemos grande assistência pessoal de Ratu Popi, rei hereditário. Sua residência era na ilha real, reservada exclusivamente para o rei e seus acompanhantes. Sua imagem é mostrada na Fig. 30 com a Sra. Price. Ele estava muito preocupado com o bem-estar de sua gente, que ele reconheceu estar rapidamente se deteriorando com a modernização. A casa do conselho também é apresentada na Fig. 30. Ele nos deu informações muito importantes a respeito da origem do canibalismo, relacionando ele ao reconhecimento de valores alimentícios especiais de órgãos especiais, particularmente o fígado.

Figura 30. A construção em cima é a Casa do Conselho de Fiji e apresenta a forma típica da arquitetura nativa, não são usados pregos nem parafusos. Ela está localizada na Ilha do Rei Mbau. O monarca hereditário, Ratu Popi é visto com a Sra. Price. Note as feições esplêndidas dele. Por baixo de seu casaco, ele veste uma camisa nativa e ele está descalço.

Houve um desenvolvimento muito extensivo de plantações de açúcar nas grandes ilhas de vários dos arquipélagos do Pacífico. O trabalho dessas plantações necessitou da importação de grandes números de trabalhadores em contrato de servidão. Eles foram trazidos principalmente da Índia e China. Já que eles são praticamente todos homens, aqueles que casaram, conseguiram suas esposas dentre as nativas. Isto, os chineses faziam frequentemente. Já que eles são trabalhadores excelentes, eles provêm bons lares e são bons homens de negócios. Eles estão, em muitos distritos, se tornando os proprietários das terras e são homens de influência. O influxo de asiáticos, junto com o de europeus, teve uma influência importante na pureza da raça nativa próximo aos portos e forneceu uma oportunidade de estudar os efeitos da miscigenação na susceptibilidade a cáries. Não foi descoberta nenhuma diferença na extensão das cáries devido à descendência. A incidência de cáries no ponto de contato com os alimentos importados foi de 30,1 % dos dentes examinados comparado com 0,42 % dos grupos mais isolados vivendo dos alimentos nativos da terra e do mar.

As mudanças físicas descobertas estarem associadas com o uso de alimentos importados incluem a perda de imunidade a cáries em praticamente todos os indivíduos que substituíram amplamente seus alimentos nativos pelos alimentos modernos. As cáries eram muito piores nas crianças em crescimento e nas gestantes devido às exigências especiais destes indivíduos. Estas condições são ilustradas nas Figs. 31 e 32. O garoto apresentado na Fig. 32 (em cima, à esquerda) tipifica o sofrimento trazido pela modernização. Dentes em abscesso frequentemente causam suicídios.

Outra importante fase dos estudos incluiu um exame crítico do formato do rosto e das arcadas dentárias, que incluem mudanças muito definidas e típicas representadas pelo estreitamento das feições e o alongamento do rosto com amontoamento dos dentes na arcada. Estes estão ilustrados na metade inferior da Fig. 32.

Figura 31. Estes nativos das Ilhas Fiji ilustram o efeito da mudança do alimento nativo para os alimentos de comércio importados. Cárie se tornou rampante e com isto, se perde a habilidade de mastigar apropriadamente o alimento. Crianças em crescimento e mães a espera de filhos sofrem mais severamente de cáries.

Figura 32. Não há dentistas ou médicos na maioria dessas ilhas. Dor de dente é a única causa de suicídio. A nova geração nascida após os pais adotarem os alimentos modernos importados frequentemente tem uma mudança no formato do rosto e das arcadas dentárias. Os dentes são amontoados como mostrado embaixo.

Os membros da raça melanésia que vivem nas Ilhas Fiji no Pacífico, sejam ilhas de origem vulcânica ou de corais, desenvolveram rostos e arcadas dentárias bem formadas e uma imunidade muito alta a cáries. Seus alimentos nativos consistiam da vida animal do mar consumida com plantas e frutas da terra de acordo com um programa definido de seleção de alimentos. Em seu estado primitivo somente 0,42 % de seus dentes foram atacados por cáries. Nos grupos modernizados esta incidência cresceu para 30,1 %. A mudança na  nutrição incluiu uma notada redução nos alimentos nativos e sua substituição por produtos de farinha branca, açúcar e produtos adoçados, alimentos enlatados e arroz polido. Nas gerações seguintes após os pais terem adotado os alimentos modernos, ocorreram mudanças nítidas no formato do rosto e das arcadas dentárias.

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