Livre Arbítrio de Forno e Fogão

Mídia – Jornal Zero Hora – Edição 16.190, de 18 de dezembro de 2009.

Coluna – Anonymus Gourmet

Autor – J. A. Pinheiro Machado

Este artigo de jornal estava guardado há quase um ano no computador esperando o início deste site para vir à tona.

Leio, com alguma regularidade, o jornal Zero Hora em sua edição eletrônica, com especial atenção para o que se publica sobre alimentação. Sempre que posso, leio a coluna em referência. Nem sempre as recomendações do colunista coincidem com nossa linha alimentar. Mas o texto transcrito abaixo me chamou muito a atenção, no todo.

O texto do colunista, sempre elegante, está primoroso desta feita. O principal destaque está no último parágrafo, num registro histórico que os dietistas de plantão, se lhes fosse chamada a atenção, tentariam apagar definitivamente.

Como, excepcionalmente, o texto será transcrito abaixo, não vou fazer muitos comentários. Chamo a atenção do leitor para duas expressões usadas no texto: encarar a moderação de forma moderada e evitar o fundamentalismo alimentar.

E atenção para o último parágrafo, que deve ser lido com calma e relido mais duas vezes, pelo menos.

Livre arbítrio de forno e fogão

Entre os encantos do mês de dezembro, está uma espécie de anistia ampla, geral e irrestrita aos pequenos excessos e exageros gastronômicos. Anonymus Gourmet vê com tolerância e bom humor o que chama de “saudável permissividade gastronômica de dezembro”: O chope extra, a garrafa de vinho em excesso, a carne gorda, os morangos com dupla nata, tudo sem culpa. Nesse clima liberal, Anonymus permite-se até teorizar:

“Na onda da comida saudável, repete-se que, para viver mais e melhor, é preciso uma dieta espartana baseada em frutas, vegetais em geral e peixes. A carne deveria, segundo os conselhos da moda, ser consumida com reservas, em poucas quantidades e em dias alternados. Entretanto, uma Comissão do Congresso norte-americano apurou numa pesquisa que oito em cada 10 casos de intoxicação alimentar não são derivados da carne, mas sim de frutas, vegetais em geral, peixes e frutos do mar”, afirma Anonymus, sem enrubescer, deliciando-se com o champanhe matinal que gosta de brindar as manhãs de dezembro.

“Em dezembro”, diz ele, “é possível consumir, sem paranóia, tudo o que traz prazer”. Somente em dezembro?

“Na verdade, certa liberalidade poderia nos acompanhar o ano inteiro”, avança Anonymus. Ele acredita que, hoje em dia, a pretexto de cuidar da saúde, muita gente “transformou o ato de comer num ato religioso”. E lança uma palavra de ordem:

“Precisamos evitar o fundamentalismo alimentar!”.

Anonymus Gourmet, que se considera um radical da cautela, acredita numa modalidade de livre arbítrio de forno e fogão, uma receita de bom senso, em que é possível comer aquilo que se tem vontade – com moderação. Mas adverte: “A própria moderação deve ser encarada de forma moderada. Nada de moderação radical. Vamos manter distância daqueles moderados extremados!”.

Um exemplo dessa saudável e desejável “moderação relativa” foi o sogro do grande Almirante Vasco Marques, grande figura humana, que faleceu este ano, com mais de 90 anos e boa saúde. Homem de avançada idade e de grande sabedoria, cruzou muitas décadas com uma notável dieta baseada em dois ingredientes essenciais: a sopa e o vinho. No almoço e no jantar, sempre fartos e muito descansados, o ilustre sogro não prescindiu jamais de um prato de sopa, como abertura, e de uma garrafa de vinho como inseparável complemento. Anote-se e sublinhe-se: uma garrafa de vinho no almoço, e outra no jantar. Afora a sopa costumeira e os encantos variados da culinária lusitana: porquinhos da Bairrada, linguiças e chouriços variados, bacalhaus exuberantes, galinhas de cabidela.

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