Quando foi que INVENTAMOS?

Os tigres, os macacos, as baleias, os besouros, as sardinhas, as gaivotas, as minhocas, e qualquer outro animal não domesticado que quisermos citar, se alimentam sem que ninguém lhes diga como nem com o que fazê-lo. E, até onde pudemos verificar, não há registro de casos de obesidade endêmica em nenhuma comunidade de minhocas.

As sardinhas comem o que sempre comeram as sardinhas, deste que se conhecem como tal. Os demais animais não domesticados idem, mas o ser humano não, pelo menos nos últimos anos. Há uns 10 mil anos, começamos acabando com o nomadismo: inventamos a agricultura. Muito tempo depois, na medida em que melhoramos as espécies vegetais e aumentamos as áreas plantadas, inventamos também as pragas.

A invenção (não intencional, é claro) das pragas levou a invenção dos agrotóxicos, aos quais a indústria química chama pelo eufemismo de “defensivos agrícolas”. Ou seja, hoje também nos alimentamos de agrotóxicos, digo, defensivos.

Junto com a agricultura, inventamos o processo de domesticação de animais. Selecionamos, geração após geração (isso muito antes da engenharia genética) os mais dóceis, os de mais carne, ou de mais lã, ou de mais ovos, até um ponto tal que começamos a decidir, por estes animais, como e quando deviam se reproduzir e se alimentar. E descobrimos que quando criados deste jeito e em quantidades grandes, surgem doenças, que exigem vacinas e remédios e descobrimos também que certos hormônios e rações os fazem crescer mais e mais depressa. Logo, inventamos de, através deles, nos alimentar também de hormônios e remédios.

Mais do que isso, inventamos a gastronomia: sabores, cores, odores e texturas, a serviço do nosso prazer. O que nos faz comer um peito de frango com hormônio ao molho espumante de maracujá com agrotóxico, digo, defensivo.

Em paralelo com a invenção da agricultura, criamos o direito de propriedade, uma vez que alguém que planta algo com seu próprio esforço, tem direito a usufruir daquilo que plantou. Estendemos este direito à propriedade da própria terra e, com isso, inventamos o início do capitalismo. Mais tarde este direito à propriedade chegou a ser estendido à posse de outros seres humanos, e inventamos a escravidão, da qual não nos livramos até hoje.

Socialmente, e na medida em que abandonávamos a vida nômade (selvagem) fomos nos fixando em determinadas áreas geográficas. Mas isso não foi suficiente. Precisávamos nos agrupar mais e inventamos as cidades e, com elas, os problemas de saneamento e suprimento de alimentos e água. Como as cidades facilitam muito a disseminação de bactérias, vírus e germes, inventamos também as pestes. E com elas, quase que todos os europeus se suicidam na idade média.

Com a industrialização, inventamos também a poluição nas cidades e com a invenção do automóvel, inventamos o engarrafamento e o desprestígio a quem não tem um (automóvel e não engarrafamento). E com o advento da empresa moderna, inventamos a competitividade, o risco do desemprego, a necessidade de sucesso e, é claro, o estresse. E, com isso, inventamos também a insônia. E com estresse e insônia, necessitamos inventar psicólogos e psiquiatras e, em seguida, inventamos o choque elétrico intencional, mais tarde substituído pelos tarjas pretas.

Em resumo, havia um tempo em que caçávamos e coletávamos para comer, e a maior parte do nosso tempo gastávamos em lazer, convivência e reprodução (ou treinando para ela). Hoje temos que viver num mundo poluído, enfrentando engarrafamentos, empregos estressantes, tendo insônia e correndo de um lado para o outro para ganhar a vida e poder comer correndo uma comida pouco saudável, para, no pouco tempo que resta, termos algum lazer, alguma convivência e um pouco de sexo.

Esta entrada foi publicada em Principal e marcada com a tag , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Uma resposta a Quando foi que INVENTAMOS?

  1. Pingback: Canibais e Reis » Blog Archive » Alimentação e Saúde, novo blogue com o paradigma que realmente interessa

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *