O Chantilly Vigor não é Chantilly

O produto é falso.

Fiquei confuso com o rótulo deste produto e fiz uma rápida busca na internet. Encontrei que o chantilly foi invenção de um cozinheiro francês feita no século 17. Trata-se da nata do leite (com um mínimo de 30 a 35% de gordura) batida até ficar bem aerada. A receita original não levava açúcar e o chantilly era amarelo, porque era produzido com leite de vacas que pastavam (naquela época não tinham o mau hábito de alimentar as vacas com milho, nem com derivados de soja, nem com bagaço de laranja e nem com o refugo das cervejarias).

O que eu esperava do chantilly industrial era algo como nata de leite acrescida de açúcar, alguns corantes e muitos conservantes. Mas a indústria se superou e inventou um produto absolutamente diferente, porém continuou chamando-o de chantilly.

Ficha do Produto e Ingredientes

Nome Comercial: Vigor Chantilly Spray.

Fabricante: Hochwald Nahrungsmittelwerke GmbH.

Aquisição: Aracaju, outubro de 2010.

Distância rodoviária da fabricação à aquisição: 11.990 km (fabricado em Erftstadt / Alemanha e considerando a entrada no Brasil por São Paulo).

O “chantilly” Vigor contém 19 componentes no total

6 ingredientes: água, gordura vegetal, xarope de açúcar invertido, amido modificado, proteína láctea e sal.

13 aditivos: 5 estabilizantes: celulose microcristalina, carboximetilcelulose sódica, alginato de sódio, monofosfato de potássio e citrato monossódico; 5 emulsificantes: mono e diglicerídeos de ácidos graxos e ésteres de ácido acético e mono e diglicerídeos; 1 corante: beta caroteno; 1 aromatizante: baunilha (artificial); e 1 propelente: óxido nitroso.

Contém Glúten? Não.

Contém gorduras trans? Não.

Quanto de sódio? 13 mg em cada 20 gramas.

O chantilly da era industrial não é feito a partir da nata do leite. É feito de gordura vegetal. Outra coisa indignante é saber que o produto percorreu 12 mil quilômetros desde o ponto onde foi fabricado até o lugar onde foi fotografado. Quanto de combustível não foi gasto nisso? É um falso produto oriundo da Alemanha. Ou seja, é uma falsificação de primeiro mundo. E com classe. O produto contém 5 (cinco) estabilizantes e 5 (cinco) emulsificantes (se bem que o rótulo é confuso e pode ter ocorrido duplicidade em dois deles). Só mesmo um país com tanta experiência química como a Alemanha para produzir uma “coisa de comer” como essa.

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Biscoito PASSATEMPO Nestlé

Se o seu objetivo é passar o tempo, sugerimos palavras cruzadas.

O produto exalta, na embalagem, que ele contribui com nutrientes essenciais para a alimentação das crianças: “Com o exclusivo NutriActive, rico em cálcio e fonte de zinco que são nutrientes importantes para uma nutrição adequada.” Só esqueceu de dizer que isso vem junto com muito açúcar. Em cada 30 gramas do produto (3 biscoitos), aproximadamente 10 gramas são de farinha e 9 são de açúcar. Além de tradicionais presenças difíceis de explicar como o sal, ou de duplicidades que só engenheiros de alimentos são capazes de conceber, como gordura vegetal junto com margarina.

Pelos dados disponíveis na embalagem, não dá para saber a quantidade de sal no produto, mas quem é que vai perceber o sal num produto que contém 30% de açúcar? Certamente o nosso paladar não perceberá, mas nosso organismo terá que processar este sal que entrou disfarçado no corpo. Se for para consumir sal, sugerimos que você o prefira na comida do dia a dia, ou quem sabe em uma picanha (de boi de pasto), mas num biscoito doce???

Ficha do Produto e Ingredientes

Nome Comercial: Biscoito Passatempo.

Fabricante: Nestlé Brasil Ltda.

Aquisição: Aracaju, outubro de 2010.

Distância rodoviária da fabricação à aquisição: 2.265 Km (fabricado em Marília / SP).

O Passatempo contém 21 componentes no total

(23 se contados também o ferro e o ácido fólico que desempobrecem a farinha branca)

15 ingredientes: farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico, açúcar, xarope de açúcar, gordura vegetal, margarina, cacau em pó, leite em pó integral – Ninho, carbonato de cálcio, amido, sal, açúcar invertido, nitrato de zinco, fermentos químicos bicarbonato de amônio, pirofosfato dissódico e bicarbonato de sódio

6 aditivos: aromatizantes (sem especificar); 3 corantes: caramelo e naturais carmim cochonila e clorofila; 1 emulsificante: lecitina de soja; e 1 umectante: propileno glicol.

Contém Glúten? Sim.

Contém gorduras trans? Não.

Quanto de sódio? 82 mg por cada 30 gramas (3 biscoitos).

Em resumo: muito açúcar e muitos ingredientes evitáveis. Não é comida de verdade, muito menos para crianças. E ainda tem propaganda enganosa (sabor chocolate alpino).

A Nestlé vive disso, já você, muito pelo contrário. Se é para passatempo, faça palavras cruzadas e coma uma fruta.

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Tabela de Aditivos da ANVISA

Frequentemente nos deparamos com siglas de aditivos nos rótulos ou embalagens dos produtos. Visando facilitar a busca de quem estiver interessado no significado dos códigos de aditivos, juntamos em um único documento algumas das tabelas publicadas pela ANVISA.

Entretanto salientamos que as tabelas podem não estar completas, ter itens já condenados ou alterados. Para qualquer uso que não seja uma mera curiosidade de saber o que significa determinado código INS ou que tipo de ação faz determinado aditivo, sugerimos consultar diretamente a página da ANVISA.

O código INS (International Numbering System) é resultante da aplicação do Sistema Internacional de Numeração de Aditivos Alimentares, elaborado pelo Comitê do Codex sobre Aditivos Alimentares e Contaminantes de Alimentos para estabelecer um sistema numérico internacional de identificação dos aditivos alimentares nas listas de ingredientes, como alternativa à declaração do nome específico do aditivo.

O INS não supõe uma aprovação toxicológica da substância, ou seja, o fato de uma substância ter um código não significa que ela tenha sido testada e nem que seja segura.

A relação anexada é composta de quatro tabelas:

Tabela 1 – aditivos por ordem de código.

Tabela 2 – aditivos por ordem alfabética, sendo que a primeira parte trata de aditivos corantes e a segunda dos demais aditivos.

Tabela 3 – aditivos por tipo de uso (apenas aqueles que têm uso quantitativo livre ou, segundo a Resolução, que atendem as boas práticas de fabricação), a tabela 3 também está dividida em duas partes, resultantes de duas resoluções diferentes.

Tabela 4 – aditivos inscritos na farmacopéia brasileira.

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CONFETI – Um Carnaval de Ingredientes

São dez ingredientes acrescidos de treze aditivos.

O subtítulo do produto afirma: pastilhas crocantes de chocolate. Quanto de chocolate, se o produto contém 72% de açúcar? E o crocante, seria porque um dos aditivos é o óxido de titânio?

Vender um produto assim é um problema da Lacta (entenda-se Kraft Foods). Comprá-lo e consumi-lo, é um problema seu. Se você for ler todo o texto abaixo, sugiro que pronuncie corretamente o nome do segundo emulsificante que aparece na lista dos aditivos. Afinal, você tem que saber pelo menos falar o que come.

Ficha do Produto e Ingredientes

Nome Comercial: Confeti Lacta.

Fabricante: Kraft Foods Brasil S. A.

Aquisição: Aracaju – maio de 2010.

Distância rodoviária da fabricação à aquisição: 2.595 Km (fabricado em Curitiba / PR).

O Confeti contém 23 componentes no total

10 ingredientes: açúcar, maltodextrina, massa de cacau, manteiga de cacau, leite integral em pó, soro de leite em pó, gordura vegetal, glicose, gordura de manteiga desidratada e leite em pó desnatado.

13 aditivos: 2 emulsificantes – lecitina de soja e poliglicerol polirricinoleato; 1 corante inorgânico – dióxido de titânio; 1 espessante – goma arábica; 1 glaceante – cera de carnaúba; 1 aromatizante – não especificado; 7 corantes artificiais – tartrazina, indigotina, ponceau 4R, amarelo crepúsculo, vermelho 40, eritrosina e azul brilhante FCF.

Contém Glúten? Sim.

Contém gorduras trans? Não.

Quanto de sódio? 26 mg (em cada 25 gramas).

Comentários adicionais:

Lembrando que a ANVISA, infelizmente, não obriga a colocar o percentual de cada ingrediente no produto, mas pelo menos obriga a colocá-los em ordem decrescente de quantidade. Logo ao comer Confeti você está, em primeiro lugar, comendo açúcar (olhe os ingredientes) e, em segundo lugar, comendo açúcar, já que a maltodextrina é excelente fonte de glicose. Mais adiante, na lista dos ingredientes, aparece a própria glicose. Se olhada a tabela de informação nutricional, o produto contém 18 gramas de açúcar na porção total de 25 gramas, ou seja, 72% do produto é açúcar. E depois ninguém sabe de onde vem a epidemia de obesidade na infância e na adolescência, nem porque temos cada vez mais diabéticos precoces.

Vá lá que você queira comer, mas daria também para o seu filho?

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Comparando Arroz Integral, Parboilizado e Branco

O arroz é uma semente. Sementes contêm ácido fítico, elemento que dificulta a absorção de nutrientes pelo organismo. Porém é quase tão difícil pedir ao brasileiro que não coma arroz quanto a um japonês ou chinês. Desta forma, elaboramos este texto para dar alguma informação que possa auxiliar o leitor na escolha.

É um alimento de ampla aceitação e disseminação pelos povos e culturas do mundo. Provavelmente sua origem seja do sudeste da Ásia e a literatura chinesa faz referência ao arroz há mais de 5.000 anos, segundo informações do site da Embrapa.

Os três tipos de arroz que iremos comparar são resultantes de um processo normalmente denominado de beneficiamento do arroz, o que é um termo equivocado, uma vez que veremos que quanto maior for o beneficiamento, menos benefícios o arroz nos trás.

O arroz integral é resultante do simples processo de descascamento, ou seja, é o grão de arroz sem casca. O fato de o arroz integral ter maiores teores de nutrientes não indica que todos estarão biodisponíveis (passíveis de serem assimilados pelo organismo), uma vez que os fitatos e maior teor de fibras podem impedir ou reduzir a absorção de alguns nutrientes.

o arroz branco ou polido, é o resultado da retirada das demais camadas externas do grão de arroz integral: pericarpo, tegumento, camada de aleurona e embrião. O polimento tem como objetivo melhorar o sabor, o visual e a textura do grão de arroz, assim como aumentar a sua vida útil.

O arroz parboilizado é obtido por um processo hidrotérmico em que o arroz com casca é imerso em água e aquecido a uma temperatura superior a 58 ºC. Após, o arroz é seco e descascado. O processo, cujo principal objetivo é aumentar a renda da moagem do arroz (ver página 126 da referência 1 deste texto), acaba incorporando elementos da casca ao grão do arroz, mas também acaba perdendo outros nutrientes do grão.

O trabalho citado na referência 1 estudou 9 diferentes cultivares de arroz, notadamente as obtidas pelo IRGA (Instituto Riograndense do Arroz) e os dados que mostramos na tabela 1 são resultado da média obtida por nós, a partir do resultado das análises feitas nestas nove variedades no trabalho citado. O lado direito da tabela relativiza os valores quantitativos dos componentes assumindo que a quantidade existente no grão integral equivale a 100%. Desta forma, o arroz parboilizado contém apenas 28% do magnésio que existe no integral, enquanto que o arroz branco contém menos ainda, só 24%.

A tabela também indica que o arroz parboilizado perde para o branco em alguns componentes como Sódio (Na), Ferro (Fe), Manganês (Mn) e Zinco (Zn). O lado direito da última linha da tabela mostra uma média aritmética simples (dado também gerado por nós a partir dos dados do trabalho) dos teores e indica que o arroz parboilizado apresenta apenas 51% do teor dos nutrientes em comparação ao arroz integral, e o arroz branco apresenta, surpreendentemente, um teor levemente maior (53%). Porém este dado não avalia a qualidade do nutriente (a média não é ponderada) nem sua biodisponibilidade.

Já no site da Embrapa Feijão e Arroz, encontramos dados que avaliaram alguns dos componentes acima e diversos outros e ao resultado, mostrado no lado esquerdo e no centro da tabela 2, acrescentamos a parte de percentual relativo, da mesma forma como procedemos na tabela anterior. Para a média percentual que aparece na última linha, omitimos o teor de água dos grãos.

Nos dados da Embrapa, o arroz parboilizado se apresenta melhor, em termos de quantidades de nutrientes, que o arroz branco tendo como referência para ambos o arroz integral. Ressalvando que, também aqui, a qualidade e absorção potencial de cada nutriente não foram levadas em consideração.

A escolha fica a critério do leitor. Nossa recomendação geral é no sentido de evitar o arroz, por ser grão, pelo menos como alimento cotidiano, como ele é usado hoje. Quando for inevitável seu uso, sugerimos o integral, para acompanhar feijão, carnes e outros pratos, em que o arroz aparece como figurante. Porém na hora de matar a saudade de um arroz de carreteiro ou de fazer “una paella” ou de preparar um risoto, em que o arroz assume o papel de coadjuvante relevante, o jeito é apelar para o parboilizado, o branco ou um destes grãos recomendados em receitas específicas, como o arbóreo.

Referência 1: “Composição Mineral de Cultivares de Arroz Integral, Parboilizado e Branco” de autoria de Cristiane Casagrande Denardin, Leila Picolli da Silva, Cátia Regina Storck e José Laerte Nörnberg – elaborado com auxílio do IRGA, CAPES e CNPq. Em Alim. Nutr., Araraquara, v. 15, n. 2, p. 125-130, 2004.
Referência 2: Site da Embrapa Feijão e Arroz:
http://www.cnpaf.embrapa.br/parperfeito/arroz/composicao.htm
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